31/03/10

é a última vez que falo nisto

em portugal existem dois partidos cujas matrizes se inscrevem no mais rasteiro desprezo para com os anões. tirem as vossas conclusões e vejam lá se  é assim tão absurdo que as motivações políticas se tenham constituído como o leitmotiv do espectacular assalto de que fui vítima.
o primeiro que vos apresento, o do bloco, insinua que para responder à crise basta deitar um anão no caixote do lixo. o segundo é mais ambíguo, mas percebe-se ali uma intenção.









 






30/03/10

bookjacking

roubaram o meu computador que tinha as obras originais e perdi praticamente tudo o que tinha escrito

quando abri a porta de casa, no segunda-feira à noite, depois de ter passado o fim-de-semana fora,  percebi logo que algo de anormal se tinha passado: havia luzes acesas, gavetas abertas, a casa desarrumada. vi logo que alguém tinha estado ali. ou que ainda estava. apreensivo, percorri as divisões até me certificar que o ladrão (ou ladrões) tinha de facto passado por ali e levado duas coisas apenas: a carteira com todos os meus documentos e o computador portátil que, entre outras coisas, continha as duas obras em que me encontrava a trabalhar e trinta gigas de porno.



chamei imediatamente a polícia e espero que todas as diligências estejam a ser feitas para encontrar o responsável. mesmo não querendo acreditar tratar-se de um assalto cometido por alguém que me odeia ou que quer ameaçar a minha escrita, não posso deixar de reparar que estou perante um "ladrão intelectual" e "muito arrumado", pois apesar de ter andado por toda a casa não partiu nem estragou nada e levou unicamente o computador, desprezando, por exemplo, o livro de cheques ou o tinteiro em prata ou a droga que também estavam em cima da minha secretária.



quanto ao portátil, levaram o meu coração e o meu cérebro. hoje em dia o computador funciona como um arquivo pessoal, tinha lá tudo. fotografias, moradas, documentos relativos a negociações de edições, documentos de pesquisa e consultas. e os dois manuscritos que andava a escrever e dos quais não tinha cópia de segurança desde que o meu cão comeu as disquetes.



estava a escrever um romance de anões passado na américa e uma peça de teatro, uma experiência que me tinha apetecido fazer. já tinha parado de escrever há três meses mas agora ia voltar. eu funciono muito assim. paro por uns tempos e depois volto quando sei exactamente o que vou escrever. e agora ia voltar. a minha intenção era terminar as duas obras até amanhã.


e agora? irei abandonar estas obras ou vou tentar recuperar aquilo que já tinha escrito? não sei ainda responder a esta questão, embora reconheça que no que toca à peça de teatro será muito difícil rescrever o que já tinha escrito, uma vez que se trata de diálogos e o meu teclado emperra no travessão.



a propósito desta situação recordo o caso verídico de t. e. lawrence (conhecido como "lawrence da arábia") que, em 1919, numa mudança de comboios na estação de reading, em inglaterra, perdeu a sua mala e com ela grande parte do manuscrito que iria, mais tarde, dar origem à obra autobiográfica os sete pilares da sabedoria. lawrence teve de escrever praticamente tudo de novo, de memória uma vez que já tinha deitado fora as notas originais, e isso não impediu que este livro, onde relata a sua experiência com as forças rebeldes árabes (1916-1918), se tornasse uma obra de referência e desse origem ao famoso filme de 1962, lawrence da arábia, realizado por david lean.

leiam com atenção este caso aqui, por exemplo. mostra que estas coisas andam a acontecer muito no nosso país, onde o bookjacking já é considerado um flagelo.

quem sabe se este revés não irá também dar origem a uma obra literária inesquecível. pois é. por enquanto, a hora é de pedir muitas desculpas a todos.
e aos que me quiseram enviar as fotografias para reservar o livro, assegurar-lhes que guardei as fotos muito zelosamente e que ficam já para o próximo. aproveito também para proceder à devolução de duas que não cumpriram com os requisitos acordados.

o estimado leitor josé pedro aguiar branco, que me enviou um retrato da sua criada (tinha de ser uma prima, zé)


e um leitor que me acompanha desde os primeiros momentos, zanai brava, esse aficionado incondicional da minha escrita. o zanam enviou-me primas, sim, mas muito vestidas (era no máximo sutiã, zanar).



de resto, até amanhã, que ainda estou aqui na polícia.

pode o anão contra o complexo? - candidatura prémio pessoa 2010

praticamente pronto, o livro e a candidatura.
e já tem título: "pode o anão contra o complexo?", que espero que seja agradável e mobilizador.

adianto-vos já que conta a história de um anão que ficou acidentalmente cego e tem que aprender a viver sem o sentido da visão. posteriormente vai trabalhar para uma organização misteriosa, entregando armas nucleares a pé através da américa.


"um road-book de narrativa complexa, mas em tom sardónico. a prosa é dura e impiedosa, os detalhes apontados com uma minúcia fetichista e a personagem, um anão recém-invisual, torna-se taciturno, brutal, irónico e frio à medida que vai descobrindo que as suas entregas não terão um fim benigno. Um must read!"
                                                                                                                   salman rushdie


amanhã estará terminado o processo de revisão e disponível aqui, em versão e-book autografada. para o obterem, basta enviar uma foto que tenham de uma prima maior de idade, no máximo em soutien, para o endereço electrónico que está ali onde diz donativos (é um disfarce). recebem o livro e ficam com um familiar para a posteridade ali na artista da semana categoria alternativa.

27/03/10

mais do romance que aí vem

udolfo


boa noite, o meu romance já cria ruído. assim como recebi centenas de mensagens de encorajamento para a prossecução da novel obra, é verdade também que enfrentei a crítica, naturalmente em doses menores.
o meu método dinâmico de criação de personagens é complexo. o tamanho de um personagem é um micro-critério, um pormenor num procedimento holístico e exigente que me levou a anos de trabalho árduo com um processo de divórcio pelo meio. o acaso, aliado ao génio, trouxe para o meu futuro romance três personagens com o síndrome de anão, facto ao qual nem eu sequer tinha reparado. querem coisas realmente importantes? posso revelar que o grosso da narrativa se passa na suiça e no futuro. e que não abdico destas personagens lá por serem pequenas e acharem que eu estou a fazer pouco delas.
em portugal o saber sobre o síndrome de anão na arte e no desporto é escasso. as touradas estão marginalizadas e, na bola, é subutteo e pouco mais.
a tendência é soltarmos a ana drago que mora em todos nós e irmos para a rua gritar a defender os direitos dos mais pequenos, como se eles, só pelo tamanho diminuto, fossem diferentes ou não soubessem fazer manifestações sozinhos. consequentemente isto deriva numa pressão insustentável para qualquer talento emergente da literatura do burgo que decida pela inclusão de personagens estruturalmente mais baixos. esta luta rasteira tem origem nos círculos de filiados bloquistas, alastrando também aos grupos extremistas de defesa da natureza (meia dúzia de heloísas apolónias, essas cabras secas esganiçadas) e naquele paneleiro de brincos que passa a vida a colar cartazes contra o circo e a aparecer na televisão a vomitar ódio sobre o tipo de milho que ele entende  não ser tão bom para as pessoas.

o tambor, de gunther grass, continha uma banda itinerante de anões que entretinha as tropas. e matzerah, a personagem principal era, ele próprio, significativamente anão. o livro de grass tem muito mais anões que o meu. não consta que a badder meinhof (nt: bloco da minha esquerda, tradução do alemão) tenham ido chatear o gunther com merdas. qual era o problema?
um outro exemplo. dostoiévski escrevia com razoável mestria. um dos seus livros, o idiota, conta-nos a história do princípe myshkin, que era epiléctico. nenhuma associação de epilécticos molestou o fiódor. nem sequer associações de idiotas, que as há com fartura na rússia. mais, dostoiévski era, himself, epiléctico.

há uma forte possibilidade de eu próprio ter síndrome de anão, facto que deve fazer corar de vergonha e culpa os que agora me criticam. ficarão certamente com um desejo atroz de se auto-flagelarem com os enormes dildos rôxos gelatinosos que guardam na gaveta ao lado das fotografias de indivíduos africanos em pelota. apesar de não revelar a minha identidade, por motivos que se compreendem, hipotetisem que eu tenho esta condição de baixinho. a simples dúvida deverá ser para vós, que me criticastes, insuportável. e ficará para a história o acto fascista de tentar vetar a um possível anão o direito de escrever um livro sobre os seus.

olhem, o meu romance será seminal. e vocês, com os rabinhos todos escafandrados, perceberão finalmente que, independentemente do tamanho, sou mas é um grande humanista. e que a vossa malta, ao contrário de mim, só se lembra dos anões quando lhe dá jeito demagojar.

26/03/10

o meu novo romance já tem personagens

íconus



invictus



beiças

24/03/10

casos em que a morte se dá depois da pessoa ser vista com vida

li eu aqui que a morte súbita dá-se nas primeiras vinte e quatro horas depois da última vez em que a pessoa é vista com vida.


o disparate de assumir esta probabilidade estatística nula não pode, em circunstância alguma, ser  imputado a este senhor, uma vez que ele só copiou tudo da wikipedia. no entanto, e para próprio consolo, não se livrará de expor - no centro cultural de cascais - fotografias suas em situação de arreganhar a taxa a levar no fofo, que é o castigo português para o plágio.  

ao invés, um art-similista escreveria sobre a sorte súbita.
por bonita que fosse a art-similação, perderíamos muito a oportunidade de ver emolduradas as partes podengas de um cábula vesgo. ainda por cima em acto de ter um gajo em cima dele a tirar fotografias ao mesmo tempo que coiso. 



vou deixar o art-similismo, não vá o efeito do escafandro na borboleta tecê-las.

andei para aí há uns seis anos à espera de vos mostrar uma boa novela

22/03/10

o dia mundial da poesia também foi ontem e eu ia obliviando-me.

cá vai:






caralhinhos




quando o vento beija a largura do mar, criam-se caralhinhos. aprendeste hoje esta palavra que nos enche a boca e apreende os lábios para a doçura. caralhinhos, repito, visivelmente satisfeito por ter para ti esta oferta.







abandonei a art-grafic e dediquei-me à art-simile.
não pude ir contra o meu coração porque nestas coisas eu não sou assim de me deixar estar só porque é mais fácil. a art-simile faz de mim um cirurgião e eu aprecio sobretudo a nobre arte de não ferir o original.






o senhor periale - outro grande art-similista - em recital no restaurante o lagar, no preciso momento em que art-simila "o remorso", de olavo bilac.

17/03/10

em podendo, o dinheiro de uma flor para a madeira ia para o benfica

os meus trezentos leitores diários têm me escrito muito, que sentem a minha falta e algo mais. não ando propriamente trantornado com as nove facadas que uma mulher levou aqui à porta ou por o meu avô ter sido internado e conseguido abalar sozinho meia hora depois e ter de andar a telefonar à polícia e ter comprado um carro e vendido outro no mesmo dia e aparecer-me a prestação dos dois para pagar no mesmo dia nem sequer por me marcarem aulas sempre à hora em que joga o carvalhal nem nada disso porque estas merdas resolvo eu num quarto de hora uma vez que tenho uma magna moralia para aí o dobro da vossa.
o que me tem levado tempo e consumido o meu cérebro (parece um óctopede a trabalhar, haviam de ver) são os poemas do mário cesarinho e a reflexão cuidada que me exijo depois de os ler com uma atenção que só está ao meu alcance.
 tenho uns índices técnicos de concentração na leitura muito acima da média porque ao ler os meus olhos basculam e ocupam equilibradamente os espaços entre linhas, e depois tenho um forte poder de antecipação que me permite detectar logo as minhas dúvidas em termos de poder prosseguir a leitura do poema. e depois sou calmo e não me precipito. vou ao dicionário ver o que quer dizer, e depois rapidamente absorvo aquilo tudo que lá está escrito, e às vezes são quase três linhas para explicar uma palavra, para, por fim e de forma magnífica, na bisga, partir para o resto da leitura a perceber tudo até ali.


Esta semana já li para aí quase uma dúzia (entre dez e onze) de poemas de cesarinho e percebi mais de setenta e cinco por cento deles na totalidade ou na maioria das partes.

este aqui, por exemplo, é sobre um paneleiro e mais pichotas e o fernando de sousa.


cá vai:

O Álvaro gosta muito


O Álvaro gosta muito de levar no cu

O Alberto nem por isso

O Ricardo dá-lhe mais para ir

O Fernando emociona-se e não consegue acabar.



O Campos

Em podendo fazia-o mais de uma vez por dia

Ficavam-lhe os olhos brancos

E não falava, mordia. O Alberto

É mais por causa da fotografia

Das árvores altas nos montes perto

Quando passam rapazes

O que nem sempre sucedia.



O Fernando o seu maior desejo desde adulto

(Mas já na tenra idade lhe provia)

Era ver os hètèros a foder uns com os outros

Pela seguinte ordem e teoria:

O Ricardo no chão, debaixo de todos (era molengão

Em não se tratando de anacreônticas) introduzia-

-Se no Alberto até à base

E com algum incómodo o Alberto erguia








este urso que gosta de apanhar no cú fica aqui bem.

14/03/10

à atenção da ministra alçada

o fenómeno já estatístico dos professores e dos alunos que andam para aí a mandar-se para os rios ultrapassou, e isto sou eu a dizer, os limites do razoável. não devíamos precisar destes mártires modernos, e isto sou eu outra vez a dizer, para admitir que temos um problema do caralho na educação deste país.

12/03/10

a cavalo dado não se olha adentro



o ouvinte onésimo veio ali pedir para eu mostrar um rabo em desenhos animados porque tem vergonha de o pôr lá na supercâmara, que fica na higiénica de vila franca ao fundo e à direita nas farmácias de serviço ou considera com acerto que trancas roliças a desembaraçarem-se de diamantes no passeio público pertencem mesmo é a esta casa.
a música é em inglês mas quem canta é um francês de barbas que já ganhou o festival da canção e papou a carla brundi. obrigado onésimo.

10/03/10

têm de se entreter com isto


Daniel Johnston Nov 2 Berlin Volksbühne live
Enviado por nuflicks. - Veja mais vídeos de musica, em HD!

lembrei-me agora que nunca irei ter oportunidade de ver um filme do austin powers em que o makukula fizesse papel de mau, assim de cientista maluco de fita na cabeça que quer acabar com o mundo com uma bomba ou isso mas depois no fim morre num incêndio.
isto muito a propósito da boa dose diária de estabilidade e crescimento que aquele senhor anormal que eu pus a cantar ali em cima precisa depois de  meter um chuto de ácido num concerto dos butthole surfers, estampar a avioneta do pai octogenário porque jesus lhe disse que era a melhor coisa a fazer naquele dia, ser internado compulsivamente ora por estragar o natal à família ora por partir as fuças do seu melhor amigo à paulada (primeiro enervou-o e depois foi parar ao hospital e tudo), gravar cassetes compulsivamente todas originais sem copiar nenhuma, e entregá-las à porta dos concertos de malta a sério, chegar a casa e levar um raspanete da mãe por se esquecer da missa e simultaneamente achar que os beatles não só estão vivos como vão fazer a primeira parte do seu concerto.
parecendo que não, já vi desculpas piores. e a partir da terceira audição, a música começa a ser boa. é quase magia. por isso tem uma lista de fans que vai dos nirvana ao recém falecido mark linkous (mas não foi o daniel que o matou, o mark matou-se sozinho, ontem ou antes de ontem), passando pelo matt groening, beck, tom waits.
houve um gajo do suplemento do público sem escrúpulos nenhuns é que uma vez lhe deu bolinha num disco, só por o anormal ter este handicap tratou-o logo abaixo de cão.

09/03/10

07/03/10

not so wonderful, está visto



o mark linkous matou-se ontem, soube-o agora. tenho uma lista enorme de pessoas que não me apetecia nada que se matassem e nunca me lembraria deste. mas foda-se, de qualquer das maneiras.

05/03/10

quem daqui não é e aqui não mora, tolo é se não se vai embora

no âmbito assim da vida, por exemplo, vejo-me vezes demais em situações novas e invariavelmente indesejadas, as últimas centenas das quais decorrentes de uma decisão do tribunal que obrigou o estado a reparar uma situação nova e indesejada em que me meteu e que me causou um dolo do caralho.
ora o estado, por definição, é aquilo que todos sabemos. e desta vez enfiou-me numa sala com professores de música de um mestrado qualquer daqueles dos bons.
as minhas orelhas nunca foram boas para a música e a sala tinha um piano.  todos se conheciam e eram muito simpáticos e cúmplices. e eu derivado à hora, às cassetes do doutor phil e à longa viagem que o estado me obrigou a fazer para me compensar, resolvi meter conversa com o professor de música que me parecia possuir o transtorno de personalidade menos agravado e os decibéis mais próximos daquilo a que poderíamos denominar nível de não agressão.
a conversa foi exactamente assim, que eu só cheguei a casa há vinte minutos:


- então vocês costumam tocar aqui neste piano?
- não, neste não por causa da tranca.
- ah, vocês não podem tocar em pianos de cauda?
- não, pá. tranca é aquela fechadura que não deixa abrir a parte das teclas.

e olhou para mim como se eu estivesse a comer um gelado com a testa.

a minha erudição musical só vai até ao waldo de los rios. explicar que me passou pela cabeça que esta malta da música pudesse ter um jargão para a cauda do piano, fosse ele tranca ou peida ou outra merda qualquer era assumir definitivamente que o estado me anda a compensar através da surrealidade e da auto-humilhação. e eu posso estar já tão desorientado como o josef k mas para já não me vou metaforsear em insecto.

sofri bastante bullying psicológico até ao fim da sessão.



uma tranca de um piano, na realidade a que chamo minha.

01/03/10